A Visão Sistêmica do Perdão

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O PERDÃO PEDE HUMILDADE

Por Almir Nahas (*)

A vida nos traz muitos encontros, entre eles alguns mais marcantes, inesquecíveis. Seja pela grandeza e os momentos de felicidade e realização do que vivenciamos junto a alguém, seja pelas dificuldades e dores que resultaram da convivência. Destes, muitos preferiam esquecer, apagar da lembrança, como se nunca tivesses acontecido. É sobre esses que quero falar.

Eventos que causaram sofrimento encontram um fim quando se chega ao perdão.

Na minha experiência como terapeuta, trabalhando há anos com Constelações, vivenciei muitos cenários em que o perdão, de fato,. É o cominho para a libertação, que permite voltar a fluir com leveza. Mas, para funcionar, para que o perdão conduza os envolvidos pelo caminho da paz, precisa ser vivido com humildade. O perdão humilde coloca vítimas e algozes lado a lado, iguais, ambos libertos. Não reinvindica, não exige, não acusa e não se impõe. O perdão humilde chega de mansinho e dissolve a mágoa, a raiva, a necessidade de vingança. Se errar é indiscutivelmente humano, o perdão, se humilde, é realmente divino, pois traz uma paz que não chega apenas para a vítima, mas abraça a todos os envolvidos.

Na experiência com a terapia das constelações, pedir perdão não traz solução. Por diversas razões. Quem errou, ao se apressar pedindo perdão, tenta transferir ao outro o peso da solução. Uma vez que eu já pedi perdi, agora o problema é seu, você fica com a pressionado a perdoar. Se não consegue fazê-lo, passa a ser o responsável pelo problema. Afinal, “eu já pedi perdão, o que mais posso fazer?” Também se vê frequentemente que não é qualquer perdão que é divino. Existe, e é bem frequente, uma qualidade de perdão arrogante. Quem perdoa se coloca acima do que errou. Quase santo. Na visão distorcida do arrogante, o perdão torna-se quase uma forma de humilhar o agressor. O ar de superioridade presente no perdão arrogante se traduz numa frase, que nem precisa ser dita, mas está inconsciente ou conscientemente presente: “já perdoei você por ter feito aquilo, você me deve essa!“

E mais. Para quem fez algo de que se arrepende, o perdão mesmo só chega quando é possível sentir o real peso do estrago causado no outro. Quando isso acontece, a consciência se expande, a visão se torna mais clara e o arrependimento toca profundamente o agressor. E isso o permite finalmente colocar-se no lugar do agredido e sentir como ele sente. Portanto, não basta pisar no pé e pedir desculpas, formalmente, para se livrar da culpa. Dependendo da dor causada, o perdão requer que seja feito um percurso. Perdoar, na visão das constelações, não é colocar uma pedra em cima e se esforçar para esquecer. Mesmo porque, dependendo da experiência, não é possível esquecer. Perdoar é virar suave e definitivamente uma página da sua história pessoal, é sentir a dor apenas durante o tempo necessário, e deixar ela ir, no tempo certo, e até que se possa, internamente, olhar a pessoa que causou a dor com naturalidade. Não se trata de esquecer o que viveu. Simplesmente o passado passou, e a velha dor não precisa mais ser revivida ou ressentida.

 

(*) Almir J. Nahas é jornalista, terapeuta e palestrante

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